Depois de uma separação, uma mudança de carreira, uma maternidade ou qualquer transformação grande, é comum chegar a um ponto em que a vida já mudou, mas a pergunta "quem eu sou agora?" ainda não tem resposta. Esse intervalo — entre o que já não é e o que ainda não se sabe o que é — costuma ser um dos momentos mais desconfortáveis de qualquer mudança.

Por que essa pergunta aparece justamente depois

Enquanto a mudança está em curso, a energia costuma estar voltada para atravessá-la: lidar com o prático, com o urgente, com o que precisa ser decidido. É só depois, quando a poeira começa a assentar, que sobra espaço para perceber que a forma como você se via também mudou — e que essa nova versão ainda não tem nome.

Não se reconhecer não é o mesmo que estar perdida

Existe uma diferença importante entre "não sei mais quem eu sou" como um sinal de crise e "não sei mais quem eu sou" como uma fase natural de reconstrução. A segunda é desconfortável, mas esperada: identidade não se atualiza no mesmo ritmo que os fatos da vida — ela precisa de tempo para alcançar o que já mudou.

Comparar-se com quem você era antes

Uma armadilha comum nesse momento é medir a versão atual pela régua da versão anterior, como se a antiga fosse o padrão correto a ser recuperado. Isso raramente ajuda: depois de uma mudança grande, não se trata de voltar a ser quem você era, mas de descobrir quem você é a partir do que vivenciou.

Não existe uma resposta pronta, e tudo bem

É tentador querer resolver essa pergunta rapidamente, como se houvesse uma resposta definitiva esperando para ser encontrada. Na prática, a resposta vai se construindo aos poucos, por meio de pequenas escolhas cotidianas — o que você volta a fazer, o que decide não fazer mais, o que descobre que ainda importa e o que percebe que não importa tanto assim.

O que ajuda nesse período de transição

Permitir-se experimentar, sem precisar ter certeza antes de agir. Notar, sem julgamento, o que muda e o que permanece em você ao longo do tempo. E lembrar que não ter uma resposta pronta para "quem eu sou agora" não é um problema a ser resolvido às pressas — é, muitas vezes, o próprio processo de reconstrução acontecendo.

Se você já não se reconhece completamente depois de uma mudança grande, isso não significa que você se perdeu. Significa que uma parte nova de você ainda está sendo construída — e isso, com tempo, tende a ganhar forma.

Com carinho, Carla Gabrielle Thomas

Carla Gabrielle Thomas é psicóloga (CRP 07/32377), Mestre em Psicologia e Saúde pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Atende adultos, 100% online.