Você já recebeu um elogio no trabalho e pensou "tive sorte" ou "só deu certo porque ninguém percebeu os erros"? Ou terminou uma conquista importante sentindo mais alívio por não ter sido "descoberta" do que orgulho pelo que fez? Se essa sensação é familiar, você não está sozinha: ela tem nome, e é bem mais comum do que parece.
O que é a síndrome do impostor?
Apesar do nome, não se trata de um transtorno, e sim de um padrão de pensamento: a dificuldade persistente de reconhecer as próprias conquistas como mérito, junto com o medo constante de ser "exposta" como alguém menos capaz do que os outros pensam. Quem convive com isso costuma atribuir os resultados bons a fatores externos, sorte, timing, a ajuda de alguém, e os resultados ruins a uma incompetência pessoal profunda.
Por que o sucesso não convence?
O problema não é falta de evidências. Muitas vezes a pessoa tem um histórico sólido de conquistas, mas cada uma delas é rapidamente reclassificada: "esse projeto deu certo porque a equipe era boa", "passei porque a prova estava fácil". Esse filtro faz com que nenhuma prova externa seja suficiente, porque a crença de base, a de não ser realmente capaz, nunca chega a ser testada de verdade.
De onde costuma vir esse padrão?
Ambientes de alta cobrança, comparações constantes na infância ou início de carreira, e a ideia de que errar é inadmissível costumam alimentar essa crença. Também é comum em quem ocupa espaços novos, uma primeira geração numa profissão, uma mudança de área, uma posição de destaque, onde falta um grupo de referência que valide "isso também acontece comigo".
O custo de viver assim
A síndrome do impostor não afeta só a autoestima: ela também sustenta uma rotina de esforço excessivo. Para compensar a sensação de não ser suficiente, é comum trabalhar mais do que o necessário, revisar tudo várias vezes, evitar pedir ajuda por medo de expor uma suposta fraqueza. O resultado costuma ser cansaço crônico, sem que o desconforto interno diminua na mesma proporção.
O que ajuda, na prática
Separe fato de interpretação. Anote uma conquista recente e liste, de forma objetiva, o que você fez para que ela acontecesse. Depois, compare com a explicação que sua mente deu na hora ("foi sorte"). Repetir esse exercício ajuda a enfraquecer o piloto automático da desqualificação.
Nomeie o padrão quando ele aparecer. Perceber "isso é a síndrome do impostor falando" já cria uma distância entre você e o pensamento, o que costuma reduzir sua força na hora.
Fale sobre isso com alguém de confiança. Descobrir que colegas admirados sentem o mesmo é, para muita gente, o primeiro momento em que a crença de "só eu sou assim" começa a ceder.
Redefina o que conta como competência. Ninguém sabe tudo, erra tudo, nem precisa acertar sempre para ser boa no que faz. Competência inclui pedir ajuda, errar e corrigir, aprender em público.
Reconhecer o próprio valor não é sobre eliminar toda dúvida, e sim sobre parar de tratar cada conquista como uma exceção. Quando esse padrão está muito arraigado ou vem acompanhado de ansiedade e esgotamento, a terapia pode ajudar a entender de onde ele vem e construir uma relação mais justa com o que você já é capaz de fazer.
Com carinho, Carla Gabrielle Thomas
Carla Gabrielle Thomas é psicóloga (CRP 07/32377), Mestre em Psicologia e Saúde pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Atende adultos, 100% online.